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segunda-feira, 1 de março de 2010

CONEXÃO POÉTICA

(poemas, letras de música, poemas-objeto, instalações, objetos alegóricos, foto-poemas, intervenções, vídeo-performances, ensaios)- (1967-2010)

As poéticas convencionais, experimentais e contemporâneas formam, desde as primeiras atuações e publicações uma espécie de rede de sustentação de um processo criativo com várias origens e vertentes. Quando seguem paralelamente às artes visuais, constituem áreas de contato, ora integradas, ora exercendo as formas do poema convencional, de forma a incluir múltiplas linguagens em um só desdobramento. Desta forma se intercalam, na trajetória poética, quase que simultaneamente, o texto, o poema gráfico, o poema-processo e outras formas de expressão. Letras de música para a composição tradicional são criadas no mesmo período que experimentações sonoras, no campo da música eletroacústica ou de gravações de ruídos e palavras em equipamentos simples, desde a década de 1970. Mesmo que as gravações das primeiras letras de música tenham sido compostas anteriormente, obedecendo aos padrões convencionais, as experimentações e proposições musicais contemporâneas já eram exercidas. É como se toda a tradição da poesia fizesse parte de um único núcleo em expansão, livre de rupturas e de exclusões, onde cabe o soneto, a poesia moderna, o cordel, as experimentações concretistas, a sonoridade, a radiofonia, a imagem gráfica e fotográfica.


Na década de 1970 são incorporadas ainda o xerox, a “poesia-discurso-político”, grafismos públicos com spray, o “poema-relâmpago”, as intervenções em muros, asfalto e out-doors, as primeiras publicações independentes feitas em mimeógrafo, computador e off-set, o poema-processo, os manifestos poéticos e as performances políticas, em contraposição à ditadura militar. Ainda neste período, no auto-exílio, no Chile, as artes cênicas são incluídas no formato de performances, adereços e intervenções em manifestações de rua. Na volta ao Brasil a produção de letras de música e eventos poéticos alternativos se intensifica e se diversifica individualmente e em eventos de grupos e manifestações de resistência contracultural, no Parque Lage (Experimentações Contemporâneas e Verão a 1000) e em diversos eventos como o Circuito Aberto e Nuvem Cigana, no Rio e outras cidades.


A assimilação da performance, da intervenção poética, da instalação e interferência em espaços diversos se integra definitivamente à trajetória poética e surgem os primeiros poemas-objeto. A criação de alegorias e adereços poético-carnavalescos (artefatos de carnaval) tiveram maior desdobramento nos anos 1980, com a Fundação do Bloco Suvaco do Cristo e outros, que reergueram o carnaval de rua do Rio de Janeiro. Neste período foram realizadas ainda performances televisivas na TV Bandeirantes na apresentação do programa Boca a Boca).


Com o trabalho de pintura com minerais e pigmentos iniciado em 1979 já
consolidado, como uma interpretação poética das artes visuais, estes materiais são também assimilados e mostrados na exposição “Como Vai Você, Geração 80”, em instalação no “Território Ocupado”, na EAV Parque Lage e circuito de exposições coletivas e individuais. O contraponto entre todas estas linguagens poético-visuais, materiais e matérias, suportes e atitudes passam a formar um conglomerado de processos criativos de convivência simultânea, acrescidos ainda de textos críticos, idealização e realização de eventos, programas e projetos, proposições, curadorias e atuações em diversos segmentos culturais. Não havendo mais fronteiras entre as artes visuais e o exercício da poesia, é estabelecido um espaço de ação e circulação capaz de absorver qualquer linguagem, em um universo múltiplo e diverso.


PIPA(1976)






Livro de uma página só, página dupla de jornal,dobrável, contendo 100 poemas que formam um rosto(auto-retrato), editado e lançado em 1976.Reúne poemas escritos entre 1968 e a data da publicação. O lançamento desta edição foi realizada na Escola de Artes Visuais- Parque Lage- Rio de Janeiro, em evento de oito horas de duração, com a participação e presença de poetas, músicos, artistas visuais, cientistas, biólogos, ecologistas, ETs, e público em geral.Neste dia, quem quisesse se manifestar, poderia fazê-lo livremente, no palco ou em qualquer espaço do Parque Lage. O lançamento deu origem a diversos programas da EAV, com espetáculos, recitais, artimanhas ,shows e eventos multimídia independentes, que se estenderam até meados dos anos 1980. Estes eventos serviram de referência para vários outros modelos similares alternativos que se estendem até hoje, como o CEP 20.000, com a ocupação de espaços oficiais e alternativos.


Manifesto Tudista (1992)





Meteoro Cúbico Poético(1987)






Cubo de poliuretano expandido, revestido com cinzas e minério de ferro, contendo 1000 poemas inéditos incinerados. Os poemas foram lidos pela última vez e em seguida queimados. Trata da pulverização de parte da produção poética diante da impossibilidade de editá-los em livros, devido ao extenso fluxo de criação poética e falta de sistema editorial. É uma forma de edição, embora o objeto-visualmente pesado para a visão, mas de matéria super leve- entre em fusão se a temperatura ambiente chegar a 70 graus centígrados. A esta temperatura a obra desaparece, assim como não existiríamos também para observá-la. A obra sugere outras associações e deve ser mostrada sobre uma.


Palavreiro ( 1994 )






Poema-objeto-processo. Embalagem plástica transparente para freezer, cheia de frases recordadas em papel e dobradas ao meio para se entrelaçarem. São 6 frases, sendo cada uma em uma tira, multiplicadas,sendo 3 delas escritas em línguas mortas ( latim,grego e tupi arcaico) e 3 em línguas vivas ( português, francês e inglês ). Tratam da memória e fragmentação da escrita e mistura híbrida entre elas. Não formam uma “liga” entre si, apenas se misturam no mesmo espaço e tempo. O objeto faz parte de uma instalação apresentada no MNBA-RJ junto com outros artistas visuais e poetas (“Palavreiro”). A instalação forma um poema-processo-objeto, no quais estas mesmas frases, em outras embalagens iguais, ora são “fundidas” por meio de uma lente mylar e acetato impresso, ora incineradas. Há embalagens com apenas ar do “soprante”, que vagueiam pelo chão, movidas por um ventilador. Há outras com bolas de gude, água e restos de queimaduras. Referem-se a um processo de transmutação da escrita em seus diversos significados e associações. A fragmentação, a pulverização, a liquefação, a volatização...


REZO ZERO (2005/6/7)










Poema-objeto-concreto alegórico(espuma de lã acrílica, garfos e prato de plástico, elástico e tinta preta). O prato é dependurado, com elástico, no pescoço, como um crachá, com as palavras pintadas REZO ZERO, complementado por um adereço de cabeça- um cocar de rolo de espuma, com garfos espetados. O objeto foi produzido em grande quantidade e distribuído entre integrantes do bloco carnavalesco Suvaco do Cristo, para o desfile de 2005. Faz alusão ao Programa Fome Zero e referências a tradições religiosas que pregam ser preciso rezar para matar a fome. Conceitualmente crítico e satírico, o objeto-alegórico sugere diversas performances improvisadas pelos carnavalescos, ao longo do desfile. O prato foi usado para pedir esmolas, comer, beber ou atirado para o alto como em um jogo de frisbee. Propõe ainda inserir o poema concreto, mântrico, na manifestação popular. Desloca para as ruas a linguagem construtivista, considerada elitista. Produz outras leituras. Este objeto faz parte de uma série realizada eventualmente, com outros materiais, destinados a diversos espaços expositivos ( sobre fôrmas de empadinha,marmitas,pás de lixo, fôrmas de pizza).


Meteoritos (1997?)







Poemas-objeto em cimento, minério de ferro, vidros de lâmpada queimada e fragmentos de poemas publicados no livro “Trincheira de Espelhos”(1982). Trata da fragmentação e fossilização do poema impresso, no qual as palavras se separam da estrutura original e propõem uma possível itinerância pelo espaço cósmico ou futuros sedimentos , onde poderão formar diversas composições e criar novas associações e sentidos. Os meteoritos são apresentados soltos sobre a mesa, espalhados em um ambiente, dentro de caixas abertas ou recipientes de vidro, como uma coleção de achados arqueológicos.


Forças ocultas(2008)






Poema-objeto - concreto realizado com garrafas pet, tinta preto-petróleo, letras de imprensa adesivas. Conteúdo: terra vermelha de Brasília. Este trabalho tem origem em um roteiro fotográfico solitário pelo cerrado queimado no período da seca, para fotografar a vegetação verde e as flores nascendo das cinzas. Foi encontrada uma garrafa de cachaça sobre o chão calcinado e posteriormente inserida sobre a foto as palavras forças ocultas. Lembra a renúncia de Jânio Quadros e o Suicídio de Getúlio Vargas. Ambos teriam creditado estas forças suas dramáticas decisões de abandonar o poder, deixando o país à deriva. Em uma cidade-satélite do DF foi fabricada uma cachaça com esta marca no rótulo. Para lembrar estes dois momentos históricos , a inscrição foi transposta para as garrafas de Coca-cola, atualizando seu significado contemporâneo, onde as forças econômicas que influenciam o poder político estão hoje evidentes e são representadas com ênfase nos produtos de consumo popular, na mídia e na imprensa.


Território Ocupado/ invisível indivisível
(1984)





Banheiro Químico( intervenção/instalação)





Olhos na Justiça(1992)












Interferência, instalação e performance, com repercussão nacional e internacional, realizada na escultura “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti, na Praça dos 3 poderes,DF, por ocasião do empeachment do Presidente da República, Fernando Collor. Após uma preparação sigilosa e planejada durante 3 meses, ida a Brasília para colocar 2 olhos vesgos na escultura e, com isso, denunciar a corrupção , uma vez que as ruas estavam ainda em silêncio. Coincidentemente, neste mesmo dia, as ruas das principais capitais do país foram tomadas pelos cara-pintadas, em grandes manifestações pela primeira vez. A interferência teve repercussão em toda a mídia.A prisão pelas forças especiais do Palácio do Planalto tiveram vários desdobramentos. Há um dossiê inédito sobre este acontecimento. Uma das intenções desta situação poética de risco foi trazer de volta para o plano real a imagem da justiça que vê, uma vez que já estava em trânsito para o inconsciente sua simbologia arquetípica, como cega e imparcial. Houve uma sucessão de sincronicidades como suporte histórico e midiático. A ação é considerada coletiva por interagir com o inconsciente coletivo para onde foi transposta . A partir desta ação, a escultura passou a figurar em quase todas as matérias sobre justiça e reivindicações populares, tornado-se centro de referência para manifestações e atos públicos.


A.M.O.R. (1993-2001)









Poema visual, objeto, interferência, instalação. Bandeira do Brasil de 1932, desbotada, de face dupla, transformada em um almofadão.Em um dos lados as letras do lema “Ordem e Progresso” foram pintadas de branco, deixando apenas o R ( transformado em A), o M, o 0 e o R. A obra faz referência à frase positivista de Auguste Comte “Ordem, Amor e Progresso” que inspirou o lema da nossa bandeira. No entanto, por ocasião de sua criação, foi excluída a palavra Amor. A obra propõe a reinserção desta palavra e sentido em uma das faces e mantém Ordem e Progresso na outra face. A bandeira-almofada compreende diversas leituras e associações. Tem participado de exposições no Brasil e em diversos países da Europa. Sua primeira versão, antes de ser transformada em almofada, foi apresentada em uma intervenção durante a CPI da corrupção, em sessão do Congresso Nacional, em Brasília(1993). As outras versões se sucederam em diversas situações e fazem parte da campanha de Jards Macalé para inserção do Amor na Bandeira Nacional.


Obelístico/a tragédia cômica dos cavalos de pau
(2004)





Cabeça de Peixe ( instalação/Orlâdia)
2004





Verão a 1000 (1976)







Homenagem aos Soldadores Elétricos do Metrô
(1978)





Quadrilha e 08 ou 80/fotopoemas
(2008)








Poema Falado












Eva Por Arte (1995)







Performance,improviso de texto e poema visual. Bom-Bril incandescido, tinta volátil ( água+álcool+amoníaco+lacto-purga), lençol branco, uniforme de bombeiro. Se “meteórico Cúbico Poético” trata da pulverização da palavra, “Eva Por Arte” trata da volatização da palavra e dos significados. Durante a ação, enquanto as palavras se evaporam no lençol, um texto é improvisado, em linguagem de cordel, enquanto as faíscas se apagam e a tinta se esvai. Os três componentes desaparecem sem deixar vestígios, embora se fixem na memória do espectador pelo menos por alguns minutos. A performance se refere à origem e exigüidade do tempo, à efemeridade e temporalidade do improviso, à permanência da poética enquanto presença física, que exaure como uma aura que se apaga em um corpo protegido por uma indumentária conhecida e respeitada, por salvar vidas.




O Mal de Volta à Origem( 1992)








Poemas Presenciais(2009)








Artefatos Alegóricos e Carnavais





























Publicações Poéticas : Pássaro Verde/Mimeográfica(1967), Consumo 44/em computador( 1971), Pipa(1976), Purpurina(1978), Alfa versus Gang/em jornal(1978), Urucum Fumaça/em mimeógrafo(1978), Trincheira de Espelhos (1982), poETa Clandestino (1986), Da Paulicéia à Centopéia Desvairada /as vanguardas e a MPB( 1999)

Composições Musicais/ gravações/parceiros e intérpretes: Boca Livre/Jards Macalé/Marlui Miranda/ Zé Renato/Cláudio Nucci/Geraldo Azevedo/Vinícius Cantuaária/ Nara Leão/ Roberto Menescal/ ElzaMaria/ Lourenço Baeta/ Antonio Adolfo/ Elba Ramalho/ MPB4/ Olívia Byngton/Sá e Guarabira dentre outros.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

MARÈS(2007-2010)

Série inédita de pinturas, realizada na areia da praia lisa, na baixa das marés e finalizadas em atelier. Da mesma forma que a série “Arqueoplanos” as pinturas em grande e médio formato são construídas ao ar livre, utilizando minerais, pigmentos e resinas, representando horizontes e geografias imaginárias. Os planos se superpõem até o infinito e correspondem a diversas camadas de pintura com grande proporção de água. Mesmo sugerindo uma desertificação da natureza esta água permanece registrada, pois dela depende a própria composição básica, evaporada pelo calor do sol sobre a areia. Em atelier, em algumas telas, são inseridas linhas e formas geométricas para acentuar as linhas do infinito ou para superpor elementos construtivos, racionais, sobre a quase-abstração informal predominante. Propõem uma reflexão sobre a observação do mar, do espaço cósmico ou do deserto, díspares ambientes, mas capazes de provocar um distanciamento da própria matéria, uma razão para a existência. Sugerem movimento de ondas, ventos, transformações cósmicas, mas o observador é estático, contemplativo ou está em estado de expectativa, de espera, como um pescador diante da interseção da linha de nylon com a linha do horizonte, de noite, de dia. Horizontes e geografias imaginárias de possível existência.



OBJETOS INTERCALARES (1979-2010)

(Fragmentos Intercalares)

A criação de objetos visuais, poéticos e conceituais está presente desde o início da pesquisa de materiais minerais e industriais. Desta forma intercalam as diversas séries ao longo do projeto de pintura e sua produção torna-se ininterrupta, resultando em seqüências e obras isoladas, algumas temáticas e outras aleatórias. Na verdade representam uma experimentação permanente, ou mesmo um descanso da pintura. No entanto é freqüente a alusão à arqueologia, ao tempo de corrosão e permanência de objetos cotidianos que vão se tornando obsoletos ou cuja matéria cai em desuso em um tempo cada vez menor. A “petrificação” destes objetos resulta em uma espécie imaginária de “fósseis contemporâneos” que vão se formando em nosso dia a dia sem que seja percebido de imediato. É uma precipitação de seu destino final, uma aceleração do tempo de uso, a formação antecipada de uma memória futura em tempo presente. A transformação em passado de objetos e referências que ainda estão disponíveis. Há comentários e narrativas, diálogos, associações livres ou direcionadas e incorporação de fenômenos naturais e alquímicos, efeitos de refração e reflexão de luz, magnetismo, inclusão de palavras impressas e desenhos. Dão a impressão de que tudo pode ser absorvido pela matéria ao ponto de se desdobrarem em ressignificações e comentários. Assim como pode haver uma dissolução de tudo isso. São objetos que apontam para uma liberdade absoluta de expressão e interpretação. Surgem de qualquer observação sobre a natureza e nosso transcurso. Podem evoluir exponencialmente, sem indicar um ponto final. “Objetos Intercalares” foram apresentados parcialmente em exposição na Galeria Candido Mendes de Ipanema no ano 2002, simultaneamente à exposição “Arqueoplanos” no Centro Cultural Laura Alvim. Participaram e participam de exposições coletivas de artes visuais e poéticas contemporâneas.



“...satélites artificiais, livros e discos de pedra, caixas óticas, objetos de contato imediato, pedras vivas, óculos cósmicos, fósseis contemporâneos, palavreiros, caixas ígneas, meteoros, objetos imantados, espectros, olhos galáticos, sátiras, filtros atômicos, etcéteras, formam a antimatéria do processo de explosão de uma produção em série e seus vestígios...investigação, conhecimento e processamento de idéias e matérias. ( Xico Chaves, 2002)”










terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ARQUEOPLANOS( 1998-2002)

Arqueoplanos compreende uma série de pinturas sobre tela e papel como sequência à série Lummens. No entanto estes trabalhos são realizados na areia da praia, no Rio de Janeiro, em atelier e não dentro das áreas de extração de mineral. Os pigmentos, minerais e resinas são transportados para o suporte, sobre a areia, na baixa da maré, ou sobre dunas, onde se dá o processo de pintura em diversas camadas, tempos de secagem e incorporação de marcas e registros de objetos. A proximidade do mar, do canal e de uma colônia de pescadores propicia a agregação de diversas formas orgânicas e detritos deixados pelos passantes. É como se fenômenos geológicos e arqueológicos ocorressem ao longo do tempo, em um lugar onde a terra se encontra com a água e um elemento interage com outro. Os objetos simulam diálogos entre si, em diferenças de tempo, em distâncias históricas conjeturadas, mas mètricamente muito próximas. È como se uma camada de sedimentos fósseis de 2000 anos estivesse apenas há alguns milímetros de um objeto industrial atual-como se estivessem quase no mesmo plano um fóssil de espinha de peixe e uma bisnaga de pasta de dentes vazia deixada recentemente na areia, para a constituição futura de outro fóssil, hoje objeto contemporâneo. A pintura se confunde com relevos e texturas, de forma a revelar algo quase que impossível: a incorporação de minerais não incidentes ali, trazidos de longe, com areias e sedimentos locais. Evidencia-se a presença de elementos que tiveram vida ou que ainda vivem, mas que parecem existir quase que simultaneamente. O que é efêmero ou permanente não importa. O que importa é terem deixado registros, por intervenção de um terceiro agente humano ou geográfico. São planos que se intercalam e não se definem apenas pelo olhar. As reflexões sobre este conceito de tempo, matéria e materialidade se desdobram para dar suporte à multiplicidade de objetos e pinturas que vão surgindo, paralelamente, em atelier e no local da ação, transformado em um espaço extenso de experimentação ao ar livre. Este processo resulta em uma quase saturação de formas, volumes e “coisas” que se integrarão e formarão um conjunto de fragmentos e “objetos intercalares”. A Série “Arqueoplanos” resultaram em uma exposição na Galeria do Centro Cultural Laura Alvim/Ipanema(RJ) e participaram de diversas coletivas. Resultaram ainda em intervenções, instalações e poema-objetos.



“Arqueoplanos procura, no contratempo do subsolo, os vestígios dos sambaquis submersos na geografia, que se confundem com as marcas de objetos de uso contemporâneo, em uma paisagem real e quase imaginária. A cristalização de uma linguagem equivale à pressuposta efemeridade de outra que a sucede. Permanência e transitoriedade no mesmo ciclo vital. (Xico Chaves, 2000)”.






LIVRO DE PEDRA ( 1996-2000)

A série Livro de Pedra surge ao longo das experimentações de criação e construção de objetos variados, tomando como referência a “fossilização”, com minerais, pigmentos e resinas, de utensílios domésticos, brinquedos, equipamentos, fragmentos eletrônicos, objetos de uso cotidiano ou invenções com materiais diversos. Trata do descarte rápido dos materiais e formas que os constituem, de sua utilidade e função efêmera e de sua substituição cada vez mais rápida pela indústria e novas tecnologias. O livro de papel tal como o conhecemos é petrificado, tendo sua leitura tradicional bloqueada, seu conteúdo eclipsado, restando apenas a abertura de uma de suas capas, revelando em seu interior um outro objeto incrustado, propondo uma outra “leitura”, que rasura sua função original. Por conter uma carga de significados mais extensa e maior impacto, esta série é produzida frequentemente, fazendo parte dos “objetos Intercalares” que surgem nos intervalos ou concomitantemente às séries de pinturas sobre tela, papel e variados suportes industriais. Acompanham os “livros de pedra” a petrificação de discos LPs, CDs e disquetes, seguindo o conceito estabelecido para uma “arqueologia do futuro”. E exposição “Livro de Pedra” foi apresentada pela primeira vez na Livraria e Sebo Dantes(RJ), no ano 2001 e participa frequentemente de exposições coletivas.